Nany People fala sobre preconceito, sexo e Parada Gay de São Paulo

25/06 - Por:

A humorista e atriz Nany People é sempre questionada sobre sua sexualidade, os preconceitos que sofre e como isso afeta sua vida pública.

Na televisão desde 1997, com o programa ‘Comando da Madrugada‘, Nany ganhou destaque nos últimos anos após participar de quadros permanentes no programa A Praça é Nossa e viver três meses dentro dos estúdios do reality show ‘A Fazenda’, na Record. Hoje Nany é uma das juradas do programa ‘Cante se Puder‘, no SBT, e neste mês respondeu a algumas perguntas sobre a Parada Gay, exclusivamente para o jornal Shopping News:

Você avalia que a sociedade atual está de mente aberta para as discussões que envolvem as questões sobre homossexualidade?

Em décadas passadas era um tema que nem podia ser discutido. O Brasil é muito grande e lógico que existe preconceito nessa discussão. Cheguei à cidade de São Paulo com 20 anos e ser gay era sinônimo de Aids. Naquele tempo não se dizia gay, mas sim afeminado. Acho que a sociedade ganhou campo para a discussão, mas hoje é tudo prematuro. Hoje existe uma precipitação de tudo. Se  fala de direitos, porém isso é algo que não se impõe e sim é conquistado.  Não sou puritana e nem extremista, mas se eu não quero entrar em um elevador e ver um casal aos beijos, também acho que não é aceitável ir ao shopping e ver dois homens no mesmo ato. A questão do preconceito existe; a violência aos homossexuais e as mulheres também é fato. Antes isso não era discutido e, hoje, a sociedade está aberta para isso. A vida do ser humano está terrível. Isso é mundial e não do brasileiro. Não adianta falar em globalização em meio a precocidade. Creio que os acessos são mais fáceis. Nessa discussão é importante frisar que ninguém escolhe ser gay, isso não é uma doença.

Mas como mudar esse pensamento que ainda predomina na mente de muitos membros da sociedade?

A cultura é primordial para uma reflexão melhor. A mídia foi muito importante para essa discussão. A questão foi levada para o horário nobre do principal meio de comunicação dos brasileiros e isso levou ao debate. Hoje a televisão ainda é o canal de entretenimento da grande massa brasileira e isso leva a discussão. Os jornais e revistas também abriram o espaço. Acho que a sociedade é assim, onde todos têm a possibilidade de discutir. Mas vejo que temos esse problema cultural.

E neste conceito de educação, de cultura, como explicar os atos cometidos pela juventude. Trata-se de um público que tem acesso aos meios de informação, porém mantém atos de extremismo?

Acho perigoso um país como o Brasil,  onde existe uma mistura de raças, se falar de dogmas copiados de outras culturas. Em um sábado à noite, a rua Augusta, por exemplo, se veste de diversos cenários. Falta cultura no País. Aqui se tem formação, mas falta cultura para a população. A política não deu um embasamento à sociedade. Não adianta dar celular ao povo se não tem instrução. Avalio que seja necessário fazer um trabalho na base, com foco direito na educação.

Tivemos na cidade mais uma edição da Parada do Orgulho LGBT. Como avalia essa grande manifestação?

Desde que entrou dinheiro público nas ONGs, o ideal revolucionário de fazer a democratização de ser e estar amando alguém do mesmo sexo ficou para segundo plano. Um exemplo disso é a cidade de Porto Alegre, onde até pouco tempo atrás existiam duas paradas. A Parada virou uma micareta. A intolerância ao meio gay, por vezes, é muito maior no próprio meio LGBT do que na sociedade em si. As pessoas estão preocupadas com a festa que envolve isso, com os negócios, com o número de participantes, mas se perdeu os ideias a serem buscados.

Mas as questões políticas discutidas em comissões na capital federal são fatores que mudam de algum modo este pensamento?

Quem mora no Acre pode não saber do que está acontecendo em Brasília, diferentemente dos paulistanos que estão no centro das discussões. Como a parada virou essa grande  micareta, ninguém canta a mesma língua. Os movimentos são diferentes de cidade para a cidade. As pessoas pensam nisso como uma festa e essas questões políticas são marcadas a casa movimento regional. Os projetos são mirabolantes. Se fala em discussões políticas, mas por vezes o foco se perde. Exemplo é uma discussão para  acrescentar uma letra a sigla que já ganhou várias letras ao longo dos anos.

E como teremos eleições neste ano, você aposta em um evento ainda mais político do que o comum?

Em qualquer lugar é assim. O brasileiro tem mania de querer se dar bem. Em um palanque como São Paulo é lógico que muitos aparecem para falar que adoram, que fazem isso ou aquilo. A mania do querer se dar bem é complicado: se tomba um caminhão de laranja, ninguém socorre o motorista, antes de pegar uns sacos da fruta.

Mas você acompanha todas as discussões políticas ou o trabalho de pessoas que chegaram ao poder público com alguma bandeira da causa LGBT?

Quando você entra na política, não é possível se fazer nada sozinho. Você se torna um produto de uma máquina. Por vezes o partido faz imposições. Para se falar de alguém é preciso ter livre arbítrio. Eu não sirvo para a política, pois seria uma presa fácil. Política se faz no dia a dia e não em um período. Prefiro viver do teatro. 

Você comenta sobre a perda de foco da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, mas qual seria uma solução para a melhoria deste grande evento?

Deveria ser tudo em um dia só. Volto a dizer que o evento perdeu o sentido. Hoje é uma grande excursão feita à cidade de São Paulo.

Você era ativista no evento, certo? Quando percebeu as mudanças e deixou de participar?

Participei até 1998 e quando percebi as mudanças resolvi não acompanhar. Fui mutilada na época, pois era colunista da revista G Magazine. Como disse, anteriormente, acho que política se faz no dia a dia e não em uma sessão de flashes fotográficos.

Comente sobre o que mudou na sua vida após a mudança de sexo? Como é a vida de transsexual?

Minha vida mudou e muito. Era uma metamorfose ambulante. Precisou meu namorado falar para mim que precisava mudar. Ninguém conta o pós deste processo e isso é importante. Este processo não se nasce mulher, mas se torna mulher. Hoje sou mais observadora do mundo, algo que também aprendi no teatro. O ser humano tem duas alternativas: ou se fala o que o outro quer ouvir ou que você está pensando, e por vezes a segunda opção não tem nada agradável ao que se quer ouvir.

Essa opção teve algum impacto na sua participação no reality A Fazenda. Aliás, comente como foi essa fase, pois você brinca que fez um verdadeiro filme de terror?

Sim, brinco que fiz um filme de terror, pois você é tirado da sua liberdade de ser. No reality, mesmo com conhecimento que você entra em um contexto é difícil. Algo de Maquiavel, “dividir para governar”. Quando se tira do homem seu sentido de liberdade, com regras de sobrevivência ele vai lutar até as últimas consequências.  E aí que vem o filme de terror. No começo é um por todos, mas no decorrer do programa  cada um no seu quadrado. Algo de sobrevivência. Se em uma família é complicado, imagine em uma casa com 15 pessoas. Não é nada como na vida real, que você briga e vai cada um para um lado. Lá você briga na sala e encontra a pessoa na cozinha e depois tem que fazer uma prova junto. “A Fazenda” mudou a minha vida. Quando entrei lá a pergunta que me foi feita era porquê deveria entrar. Queria mostrar para as pessoas que estou acima deste personagem que me sustenta a mais de 17 anos. Se não fosse o reality, talvez não estivesse aqui, neste espaço com tranquilidade e com o crível da sociedade. Hoje as pessoas, das diversas idades e classes, me param na rua para dar os parabéns pela minha história de vida, e me respeitam pelo que sou.

Você foi madrinha de um Guia LGBTS. O que é essa novidade

Sou madrinha de um guia que traz diversos serviços para o público gay. Um material que fala para uma classe que pode encontrar qualquer serviço com pessoas aptas a atendê-lo. Certa vez tive um problema com o fone fácil que bloqueou minha senha, pois não batia o nome do RG, onde foi inserido na frente meu nome artístico. As coisas são mais sociais e não comerciais.  Acho que esse guia pode ser muito útil para a sociedade.

Você está com um novo projeto para o teatro, comente sobre essa novidade?

Fui chamada para fazer o musical “O Incrível Doutor Green”, um projeto divertido que fala sobre cirurgia plástica. São quatro mulheres que vão à clínica e conhecem um secretário que serve como “mestre de cerimônias” delas. A estreia será no teatro União Cultural no mês de agosto.

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